Cabula

Cabula é um toque musical do grupo étnico Banto, que no Brasil representa um movimento religioso afro-brasileiro do tipo sincretizadora, com filosofia espírita, criado por Benedito Caravelas no estado da Bahia no final do século XIX, baseado em elementos secretos dos negros mulçumanos malês e do grupo étnico banto.

O movimento é classificado como candomblé de caboclo, modalidade derivada da nação angola (banto-angoíana), que incorporou o culto dos antepassados indígenas, considerada como precursora da Umbanda. Desenvolveu-se principalmente nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Olga  Cacciatore o definiu como um “um culto afro-brasileiro de características sincréticas, com traços de cultura da província cabinda, angola e muçulmana, através da influência malê, identificável pelo gorro usado pelos participantes do ritual”.

Segundo a pesquisadora  o termo “cabula” é derivado do termo “cabala”, que chegou aos conhecimentos da etnia Banto através dos negros mulçumanos.

A população negra estabelecida no bairro do Cabula (local de marcada influência africana e sede de importantes locais de culto afro-brasileiro como o Ilê Axé Opó Afonjá) seria remanescente do Quilombo do Orobó, rebelada em 1826 e a seguir praticamente dizimado, guardando no nome do lugar a origem religiosa pois, em quicongo, o nome significaria “lugar de afastamento dos males”, já que este é o objetivo do toque musical chamado Cabula que antecede os rituais de origem angolanas.

Os primeiros relatos acadêmicos derivam do registro feito, no Espírito Santo, pelo bispo católico D. João Batista Correia Néri em uma Carta Pastoral; seu registro fora inicialmente descoberto por Nina Rodrigues e mais tarde reusado por Artur Ramos, apresentando grandes semelhanças entre o culto ali praticado e aquele registrado no que mais tarde receberia o nome de Macumba, no Rio de Janeiro.

D. Néri percebera, durante uma viagem às terras de sua diocese (então composta por todo o território do estado), nas proximidades da cidade de São Mateus:

 “Três freguesias largamente minadas por uma seita misteriosa” que, despertando-lhe a curiosidade, empreendeu então uma investigação onde apurou  pelo depoimento de pessoas de todas as camadas sociais, e durante o espaço de quinze dias que os participantes ou aqueles que da seita tenham se afastado, teriam de manter em segredo suas práticas sob pena de morte por envenenamento.

A despeito da ameaça, o bispo obtivera dos relatos as informações que fizeram-no concluir que os rituais secretos, praticados principalmente pelos negros e, segundo ele, mais difundidos após a Lei Auréa , contaria na época com cerca de oito mil seguidores, entre negros e brancos.

Segundo o então bispo católico D. João Nery (da diocese que abrange as freguesias ao norte do estado do Espírito Santo em 1863), o adepto desta religião era conhecido pelo termo generalista cafioto (Gafanhoto ? )usado na Macumba carioca (processo de ampliação de sentido.

As entidades cultuadas e o sincretismo:

Na época da escravidão, houve um sincretismo afro-católico, principalmente nas áreas rurais da Bahia e do Rio de Janeiro,  a qual se denominava Cabula.

Segundo historiadores, em tais locais acontecia  os rituais mais antigos  do povo  negro escravizado  , envolvendo imagens de santos católicos sincretizados com os Orixás, devido a  fase reprimida nas senzalas dos cultos africanos, assim os  antigos sacerdotes mesclavam suas crenças e culturas com o catolicismo para conseguirem praticar e perpetuar sua fé.

Quando no final do século XIX ocorre a libertação dos escravos, a Cabula já era amplamente presente como atividade religiosa afro-brasileira.

Este sincretismo foi mantido após a anunciação da Umbanda em 1908 pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.

As entidades que dirigiam os cultos eram chamados de Tatás, termo de origem bantu que significa “pai”, mas que também pode significar “grande”. Alguns exemplos de nomes de entidades da cabula são Tatá Guerreiro, Tatá Flor de Carunga, Tatá Rompe-Serra, Tatá Rompe-Ponte.

Além dos Tatás, havia a incorporação do “Santé”, o “espírito principal”. Há poucas informações a respeito do que seria o Santé e que diferença haveria dele para os Tatás. Estudiosos deduzem que seria um “espírito da natureza”, um baculo (ou bacuro). Em uma comparação com a umabanda, é possível afirmar que os Tatás seriam semelhantes às entidades espirituais (caboclos, pretos-velhos, exus etc.), enquanto o Santé seria algo mais próximo aos orixás. Santé também pode ser a abreviação de Santidade, a primeira religião sincrética de que se teve notícia no Brasil, que misturava elementos de tradição indígena com o catolicismo popular.

A Perseguição e o Quilombo de Orobó  :

Manter o segredo sobre o ritual era como uma lei para não ser desobedecida nunca pelos seus adeptos. Há inúmeras histórias de adeptos da cabula presos e torturados pela polícia, mas que jamais revelaram os segredos de seus rituais. A longevidade da Cabula andou, inclusive, por conta desse pacto da sociedade negra para com a sua religião, segundo o historiador Maciel de Aguiar. Maciel divide em dois momentos distintos a Cabula: uma em que ela mantinha a chama revolucionária e outra servindo às rixas entre suas próprias comunidades.

Em meados do século XX a cabula passou a sobreviver com outros propósitos. Mas o seu começo foi realmente o de servir à luta pela libertação dos escravos. Sua eficiência foi tamanha nesta etapa que o governo da Província, instigado pelo padre da região, Duarte Pereira Carneiro, instituiu a guerrilha de São Mateus para o extermínio da Cabula.


Ainda segundo Maciel, essa guerrilha remanejou para São Mateus capitães do mato de outras regiões do país. Entre eles veio um dos mais temidos, o cearense Francisco Vieira de Melo, que executou o Negro Rugério, chefe do Quilombo de Santana. Mas escaparam dele outros líderes revolucionários, entre eles Benedito Meia Légua e Clara Maria do Rosário, que só seriam mortos depois da ida à região do bispo diocesano do Estado, Dom João Batista Correia Nery.


Mas o bispo só chegou lá depois da abolição da escravatura, movido pelo momento por que passava o país, ainda tomado pelo alvoroço religioso-fanático de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia. Desconfiavam os dirigentes católicos da terra que este mesmo fanatismo do sertão baiano seria transportado para a região do vale do Cricaré, onde existiam, na época, cinco mil escravos libertos.

Por esse tempo, a Cabula havia crescido muito, tinha deixado de ser apenas religião dos negros fugidos, passando a ser, também, dos negros libertos e praticamente de toda a população negra. A partir desse novo contingente de frequentadores, ela dedicou-se também ao culto aos seus heróis revolucionários, com a sistemática encarnação nos cabuleiros dos espíritos revolucionários de Benedito Meia Légua, Negro Rugério e Maria Clara do Rosário.


Por esse período da grande afluência dos negros a cabula, que vai da abolição da escravatura (1888) ao inicio do século XX, passando pela transição da Monarquia para a República, o bispo Dom João Batista Nery conseguiu que o governo pusesse em execução a maior perseguição policial a Cabula, sob suspeita, novamente, de que ali estaria também para surgir um novo Canudos, com outro fanático à frente do tipo de Antonio Conselheiro.

A Cabula atual:

Muitas raízes se perderam bem como tudo que advém da cultura africana, por causa do preconceito e intolerância religiosa que culminaram como descrito em  na perseguições, embora a Cabula hoje não seja uma prática ritual de matriz africana tão difundida, ainda detém adeptos que buscam manter acessa a chama da religião , hoje não se tem tantos seguidores da mesma e sua principal concetração de adpetos se dá em especial na região do Espirito Santo e região da Mata Mineira, mas  é necessário prestar as reverências e reconhecer a sua importância histórica e contribuição principalmente na estruturação da Umbanda, pois antes dessa já existia como visto a Cabula, Macumba Carioca e Calundus, dentre outras expressões religiosas advindas dos negros cativos, Cabula é mais que um toque e religião ,foi um ato de resistência e perpetuação da cultura africanista.

Referências:

COSTA, Valdeli Carvalho. Cabula e Macumba. In: Síntese: Revista de Filosofia. Belo
Horizonte: FAJE, 1987, v. 14, n. 41.

BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil: Contribuição a uma Sociologia da
Interpenetração de Civilizações.
São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1971.

JOÃO DO RIO. As religiões no Rio: apresentação de João Carlos Rodrigues. Rio de
Janeiro: José Olímpio, 2006. Re-edição de texto de 1906.

LOPES, Nei. Religiosidade na Diáspora: continuidade e permanência. In: SOUZA, R.
Seminário Internacional Diversas Diversidades. Rio de Janeiro: Cead/UFF, 2015

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *